Adoradores do Diabo: o filme de terror que acabou cercado por acusações de racismo

Em meio à explosão dos filmes de terror dos anos 1980, poucas produções conseguiram despertar tanta curiosidade — e, ao mesmo tempo, tantas controvérsias — quanto Adoradores do Diabo (The Believers), lançado em 1987. Estrelado por Martin Sheen e dirigido pelo premiado cineasta John Schlesinger, o longa parecia reunir todos os ingredientes de um suspense sobrenatural capaz de conquistar o público: uma investigação repleta de mistérios, uma conspiração envolvendo pessoas influentes, rituais ocultistas e uma atmosfera de constante paranoia.

Entretanto, a história da produção acabaria ultrapassando as telas. Ao longo dos anos, Adoradores do Diabo passou a ser lembrado não apenas por seu enredo perturbador, mas também pelas polêmicas que cercaram sua exibição e pela forma como retratou religiões de matriz africana. No Brasil, o filme viveu uma situação ainda mais incomum. Sua estreia na televisão coincidiu com um dos períodos de maior comoção envolvendo crimes contra crianças e investigações relacionadas a supostos rituais de magia negra, fazendo com que sua chegada à TV aberta fosse adiada em meio à pressão da opinião pública.

Décadas depois, o longa praticamente desapareceu da programação das emissoras e hoje sobrevive principalmente na memória de colecionadores e admiradores do cinema de terror. Embora nenhum órgão tenha imposto um banimento oficial, sua trajetória acabou consolidando sua fama de obra “maldita”, cercada por histórias que misturam realidade, medo e a mudança de percepção do público sobre determinadas representações no cinema.

Um suspense que explorava os maiores medos dos anos 1980

Dirigido por John Schlesinger, cineasta consagrado por dramas como Perdidos na Noite, Adoradores do Diabo representou uma incursão pouco comum em sua carreira. Em vez do realismo que marcou boa parte de sua filmografia, o diretor apostou em um suspense psicológico carregado de elementos sobrenaturais e de conspiração.

Martin Sheen interpreta Cal Jamison, um psicólogo que tenta reconstruir a vida após a morte da esposa. Ao lado do filho pequeno, ele muda-se para Nova York em busca de um recomeço. No entanto, acontecimentos aparentemente desconexos passam a chamar sua atenção, levando-o a descobrir a existência de uma organização secreta formada por pessoas influentes que realizariam rituais macabros em busca de riqueza, poder e proteção espiritual.

À medida que a investigação avança, o protagonista se vê diante de uma sequência de assassinatos de crianças e cerimônias misteriosas que desafiam sua própria visão racional do mundo.

Na época de seu lançamento, o filme chamou atenção justamente por abordar um tema extremamente sensível. A violência psicológica, as referências ao ocultismo e, principalmente, a presença de crianças como vítimas da trama fizeram com que recebesse classificação para maiores de 18 anos em diversos países, tornando-se uma das produções mais comentadas daquele período entre os fãs do terror.

Quando a realidade falou mais alto

Se nos Estados Unidos o filme já despertava debates por seu conteúdo, no Brasil sua trajetória ganhou contornos ainda mais peculiares.

No início da década de 1990, o país acompanhava com enorme apreensão uma série de investigações envolvendo desaparecimentos e assassinatos de crianças. Em muitos desses casos, autoridades e parte da imprensa levantavam a hipótese de que os crimes estariam ligados a supostos rituais de magia negra, alimentando um clima de medo que marcou aquela época.

O episódio de maior repercussão foi o Caso Evandro, ocorrido em Guaratuba, no litoral do Paraná. O assassinato do menino Evandro Ramos Caetano mobilizou o país e gerou uma cobertura intensa dos meios de comunicação. Durante as investigações, surgiram suspeitas de que o crime teria relação com práticas ritualísticas, hipótese amplamente divulgada naquele momento, embora posteriormente colocada em xeque por novas investigações e por questionamentos sobre a condução do caso.

A estreia de Adoradores do Diabo na Tela Quente

A emissora chegou a divulgar o filme em chamadas durante sua programação. No entanto, diante da enorme repercussão do Caso Evandro e da sensibilidade do assunto, optou por alterar a grade poucas horas antes da exibição.

Em vez de exibir o suspense estrelado por Martin Sheen, a Globo optou por levar ao ar Cherry 2000, aventura de ficção científica protagonizada por Melanie Griffith. A decisão surpreendeu muitos telespectadores. Afinal, mudanças de última hora eram raras em uma época em que as grandes emissoras planejavam e anunciavam sua programação com bastante antecedência.

A decisão não significou, entretanto, que Adoradores do Diabo tivesse sido retirado definitivamente da televisão brasileira.

Meses depois, quando a repercussão do caso já havia diminuído, a Globo finalmente exibiu o longa. A diferença é que a Globo reservou o filme para uma faixa muito mais tarde da noite, já avançando pela madrugada. A emissora tomou essa decisão tanto para respeitar a classificação indicativa quanto para evitar exibir, em horário de grande audiência, uma história sobre assassinatos ritualísticos de crianças enquanto o país ainda assimilava a repercussão de um caso que havia chocado a opinião pública.

Esse episódio acabou transformando a exibição brasileira em uma curiosidade da história da televisão, frequentemente lembrada por pesquisadores de programação e colecionadores de jornais da época.

Adoradores do Diabo: uma obra que passou a ser vista de outra maneira

Se a polêmica brasileira esteve ligada ao contexto histórico, internacionalmente Adoradores do Diabo passou a enfrentar outro tipo de crítica.

O roteiro utiliza referências inspiradas na Santería, religião afro-caribenha presente principalmente em Cuba e em outras regiões da América Latina. No entanto, os elementos apresentados na narrativa foram profundamente modificados para atender às necessidades do terror cinematográfico.

No filme, rituais religiosos aparecem associados a assassinatos, sacrifícios humanos, magia destinada à obtenção de riqueza e organizações criminosas secretas. Nada disso representa a prática real da Santería, cuja tradição religiosa não inclui os atos violentos retratados pela produção.

Com o passar das décadas, pesquisadores e críticos passaram a apontar que o longa reforçava estereótipos negativos sobre religiões de origem africana. Além disso, chamou atenção o fato de que o principal líder da organização criminosa fosse um homem negro, acompanhado por diversos integrantes afrodescendentes.

Essa construção narrativa levou parte da crítica contemporânea a interpretar o filme como um exemplo de uma prática comum em Hollywood durante os anos 1970 e 1980: utilizar culturas e religiões pouco conhecidas do grande público como fonte de medo e ameaça, sem estabelecer uma separação clara entre ficção e realidade.

Por que o filme Adoradores do Diabo praticamente desapareceu?

Ao contrário de outros títulos de terror lançados na mesma década, Adoradores do Diabo nunca alcançou o status de clássico popular.

Embora mantenha admiradores entre fãs do suspense psicológico, o filme passou a aparecer cada vez menos na televisão aberta e também deixou de receber a mesma atenção em relançamentos comerciais.

Essa ausência contribuiu para o surgimento da ideia de que teria sido proibido ou censurado.

Na prática, porém, não existem registros de um banimento oficial.

O que ocorreu foi um desgaste gradual de sua imagem. A combinação entre violência envolvendo crianças, a associação controversa com religiões afro-diaspóricas e as críticas relacionadas à representação racial fizeram com que distribuidores e emissoras deixassem de priorizar sua exibição.

O resultado foi o desaparecimento quase silencioso de uma produção que, durante algum tempo, esteve entre os filmes mais comentados do gênero.

Um retrato dos medos de uma geração

Rever Adoradores do Diabo hoje significa observar uma obra que dialoga diretamente com os temores de sua época. O filme nasceu em um momento em que histórias sobre ocultismo, sociedades secretas e conspirações despertavam enorme fascínio no público. Ao mesmo tempo, acabou atravessando décadas suficientes para que sua narrativa fosse reinterpretada sob novos valores culturais e sociais.

No Brasil, sua história ganhou um capítulo particular durante o Caso Evandro. A coincidência entre a ficção e a realidade acabou marcando a trajetória do filme no país. No cenário internacional, porém, a obra passou a ocupar outro tipo de debate. As discussões sobre representação racial e intolerância religiosa mostraram como o olhar do público pode transformar completamente a interpretação de um filme ao longo do tempo.

Talvez seja justamente essa trajetória incomum que mantenha Adoradores do Diabo vivo na memória dos cinéfilos. Não apenas por suas cenas de suspense ou pela atuação segura de Martin Sheen, mas por representar um raro caso em que um filme acabou sendo marcado tanto pelo que mostrava na tela quanto pelas circunstâncias históricas que cercaram sua exibição. É um retrato de uma época em que o medo extrapolava a ficção e, por vezes, parecia encontrar eco na própria realidade.

Dani Gonçalves

Daniela (Dani) Gonçalves é publicitária, com pós-graduação em Comunicação Estratégica e Storytelling pela UFF. Apaixonada por cultura pop, acompanha de perto o universo das séries, novelas, cinema e entretenimento, sempre com um olhar atento para as histórias e narrativas que conquistam o público. Sua formação em comunicação contribui para uma análise mais estratégica dos conteúdos, valorizando a criatividade, a construção de personagens e o impacto das grandes produções. Além do interesse pelo universo audiovisual, Dani também é apaixonada por viagens e acredita que novas experiências ampliam repertórios e inspiram diferentes formas de contar histórias. Nos momentos de lazer, encontra na música uma de suas grandes paixões, especialmente em bons shows de pagode e MPB.

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