A Lenda completa 40 anos: as referências que deram vida à fantasia de Ridley Scott

Poucos filmes de fantasia envelheceram de maneira tão curiosa quanto A Lenda (Legend). Lançado em 1985, o longa dirigido por Ridley Scott dividiu opiniões ao chegar aos cinemas. Enquanto parte da crítica elogiava seu visual exuberante, outra questionava a simplicidade da narrativa. Quatro décadas depois, porém, a percepção mudou. O tempo transformou a produção em um clássico cult, admirado justamente por aquilo que antes parecia excessivo: sua impressionante riqueza visual.

Mais do que contar a história do jovem Jack (Tom Cruise), que embarca em uma jornada para restaurar o equilíbrio entre a luz e as trevas após o desaparecimento dos últimos unicórnios, A Lenda convida o espectador a atravessar um universo onde cada árvore, feixe de luz e criatura fantástica parecem carregar um significado próprio. Nada ali transmite a sensação de acaso.

Essa impressão existe porque Ridley Scott não construiu seu mundo apenas com cenários grandiosos e efeitos práticos impressionantes. O diretor buscou inspiração em séculos de história da arte, da literatura e do cinema para criar uma fantasia que, ainda hoje, permanece diferente de qualquer outra produzida em Hollywood.

Em vez de adaptar um conto de fadas específico, Scott reuniu elementos de diversas tradições artísticas e os reinterpretou sob seu próprio olhar. O resultado não foi uma coleção de referências, mas um universo com identidade própria, onde cada influência se integra naturalmente à narrativa.

Assim como uma floresta esconde suas raízes sob a terra, A Lenda também guarda influências que muitos espectadores talvez nunca tenham percebido. Quarenta anos depois, revisitá-las ajuda a entender por que o filme continua tão fascinante.

Jean Cocteau e A Bela e a Fera: quando o fantástico nasce da poesia

Se existe uma obra capaz de explicar a essência visual de A Lenda, ela provavelmente é A Bela e a Fera (La Belle et la Bête), dirigido por Jean Cocteau em 1946.

Considerado um dos maiores clássicos do cinema francês, o filme de Cocteau revolucionou a maneira de representar o fantástico na tela. Em vez de depender de grandes efeitos visuais, o diretor transformou luz, cenários e movimentos em instrumentos capazes de despertar encantamento. O castelo da Fera parecia respirar. Candelabros sustentados por braços humanos surgiam das paredes, cortinas se moviam como se estivessem vivas e os corredores transmitiam a sensação de que o próprio ambiente observava os personagens.

Ridley Scott segue um caminho semelhante em A Lenda.

Logo nas primeiras sequências, a floresta deixa de funcionar como simples cenário para assumir o papel de um personagem silencioso. A luz atravessa a vegetação em feixes delicados, enquanto a névoa cobre o ambiente com um aspecto quase sobrenatural. Tudo parece existir em um delicado equilíbrio entre sonho e realidade.

A influência de Cocteau, portanto, não está na reprodução de cenas específicas, mas na forma como ambos compreendem o cinema fantástico. Para os dois diretores, magia não depende apenas de criaturas extraordinárias, mas da capacidade de transformar espaços comuns em lugares que parecem vivos.

Essa abordagem explica por que tantas imagens de A Lenda continuam visualmente impactantes. Mesmo décadas depois, elas conservam uma qualidade quase atemporal, como se tivessem sido retiradas diretamente de um sonho.

Os Irmãos Grimm e Charles Perrault: uma história construída a partir de muitos contos

Embora muita gente tente associar A Lenda a um conto de fadas específico, o filme jamais adapta uma única obra.

Na realidade, Ridley Scott constrói sua narrativa reunindo elementos presentes em histórias que atravessaram gerações.

A floresta encantada, por exemplo, lembra os cenários descritos pelos Irmãos Grimm, onde o bosque nunca representa apenas um espaço físico, mas um território de transformação. É nele que heróis enfrentam seus maiores desafios, personagens descobrem sua verdadeira identidade e forças sobrenaturais interferem diretamente no destino dos homens.

Em A Lenda, Jack percorre exatamente esse tipo de ambiente. Cada passo parece aproximá-lo não apenas do confronto contra o Senhor das Trevas, mas também de uma jornada de amadurecimento.

A própria princesa Lili também dialoga com diversas heroínas dos contos clássicos. Sua curiosidade diante dos unicórnios desencadeia acontecimentos que alteram completamente o equilíbrio daquele mundo, lembrando personagens que, movidas pela inocência ou pela curiosidade, acabam despertando forças muito maiores do que imaginavam.

Essas aproximações mostram que Scott nunca pretendeu reproduzir uma única narrativa tradicional. Seu objetivo era construir um conto novo utilizando símbolos que o público reconhece quase instintivamente.

É justamente essa familiaridade que faz A Lenda parecer, ao mesmo tempo, original e estranhamente conhecido.

Arthur Rackham: o ilustrador que transformava florestas em personagens

Se Jean Cocteau ajudou a moldar a atmosfera cinematográfica de A Lenda, e os Irmãos Grimm forneceram parte de sua estrutura narrativa, poucas obras parecem dialogar tão intensamente com sua direção de arte quanto as ilustrações do britânico Arthur Rackham.

No início do século XX, Rackham tornou-se um dos mais importantes ilustradores de contos de fadas da Europa. Suas imagens eram marcadas por árvores retorcidas, raízes que pareciam ganhar vida e florestas que transmitiam, ao mesmo tempo, beleza e inquietação.

Ao observar essas ilustrações hoje, é difícil não perceber semelhanças com diversos cenários do filme de Ridley Scott.

Em A Lenda, a natureza nunca permanece imóvel. Os troncos parecem acompanhar silenciosamente a jornada dos personagens, enquanto galhos e raízes criam corredores que conduzem o olhar do espectador para o interior daquele universo mágico.

Mais do que reproduzir uma estética específica, Scott adota o mesmo princípio artístico de Rackham: transformar a paisagem em uma presença ativa dentro da narrativa.

Na próxima vez que assistir ao filme, vale observar como a floresta muda de personalidade conforme a história avança. Em alguns momentos ela acolhe Jack e Lili com delicadeza. Em outros, torna-se um espaço sombrio, onde cada árvore parece esconder criaturas invisíveis.

Essa sensação de que a própria natureza possui consciência aproxima A Lenda das ilustrações de Rackham e reforça a impressão de que estamos caminhando por um lugar onde tudo parece vivo — uma característica que acompanha os grandes contos de fadas há séculos.

Gustave Doré: o imaginário medieval que ganhou vida nas telas e em A Lenda

Muito antes de o cinema existir, o artista francês Gustave Doré já criava imagens capazes de transportar o público para universos fantásticos. Suas gravuras para obras como A Divina Comédia, Dom Quixote, Paraíso Perdido e diversos contos populares ajudaram a moldar o imaginário visual da fantasia ocidental, influenciando gerações de ilustradores, cineastas e diretores de arte.

Em A Lenda, essa herança aparece menos como uma referência direta e mais como uma presença silenciosa que permeia todo o filme.

As composições grandiosas, os cenários monumentais e o contraste entre luz e escuridão lembram a maneira como Doré representava o embate entre forças divinas e malignas. Seus desenhos frequentemente mostravam personagens diminutos diante de paisagens gigantescas, reforçando a ideia de que o ser humano ocupa apenas uma pequena parte de um universo muito maior.

Ridley Scott utiliza exatamente esse recurso em diversas cenas. Jack surge cercado por árvores imensas, salões colossais e ambientes que parecem desafiar qualquer escala humana. Em vez de reduzir seus protagonistas, essa escolha amplia a sensação de maravilhamento e reforça que aquele mundo obedece a regras próprias, onde natureza, magia e destino caminham lado a lado.

Esse diálogo visual também aparece no castelo do Senhor das Trevas. As enormes colunas, os corredores sombrios e a monumentalidade da arquitetura evocam o mesmo sentimento presente nas gravuras de Doré: um espaço onde o sagrado e o profano convivem em permanente tensão.

Arnold Böcklin e a beleza melancólica de um mundo entre sonhos

Outra influência que costuma passar despercebida é a do pintor suíço Arnold Böcklin, um dos principais representantes do simbolismo europeu.

Suas obras exploravam paisagens silenciosas, ruínas antigas e cenários envoltos por uma atmosfera de mistério. Em pinturas como A Ilha dos Mortos, Böcklin criava espaços que pareciam existir entre o mundo real e o imaginário, despertando mais contemplação do que medo.

Essa sensação ecoa em vários momentos de A Lenda.

Mesmo nas sequências em que nada ameaça os protagonistas, Ridley Scott evita transformar a floresta em um lugar completamente seguro. Há sempre um silêncio quase reverencial, como se o espectador estivesse diante de um território sagrado.

Essa escolha torna o filme profundamente diferente de outras fantasias produzidas nos anos 1980. Em vez de privilegiar apenas a aventura, Scott convida o público a contemplar aquele universo. Muitas cenas permanecem na memória não pelo que acontece nelas, mas pela maneira como são fotografadas, iluminadas e compostas.

É justamente aí que reside uma das maiores forças do longa: sua capacidade de transformar cada quadro em uma pintura.

A mitologia europeia e os símbolos que atravessaram os séculos

Embora A Lenda nunca cite uma mitologia específica, praticamente todos os seus elementos fantásticos possuem raízes em antigas tradições europeias.

Os unicórnios, por exemplo, não aparecem apenas como criaturas mágicas. Desde a Idade Média, eles simbolizam pureza, equilíbrio e harmonia entre a humanidade e a natureza. No filme, sua presença representa exatamente esse equilíbrio, enquanto sua perda mergulha o mundo em um inverno sobrenatural.

O mesmo acontece com as fadas, duendes e espíritos da floresta, figuras presentes no folclore celta, germânico e nórdico muito antes de chegarem aos livros infantis.

Ridley Scott compreende o valor simbólico dessas criaturas e evita tratá-las apenas como ornamentos visuais. Cada uma participa da narrativa reforçando a ideia de que aquele universo depende da convivência entre diferentes forças da natureza.

O Senhor das Trevas também dialoga com séculos de tradição artística.

Seu visual, criado pelo lendário maquiador Rob Bottin, tornou-se uma das imagens mais marcantes da fantasia no cinema. Os enormes chifres, a pele avermelhada e a imponência física lembram representações medievais do diabo presentes em pinturas, esculturas e manuscritos religiosos.

No entanto, Scott evita construir um vilão puramente monstruoso. Assim como nas antigas alegorias medievais, o Senhor das Trevas representa a tentação, o desequilíbrio e o desejo de submeter toda a criação à escuridão. Sua força não está apenas na aparência intimidadora, mas no simbolismo que carrega.

O expressionismo alemão e a linguagem das sombras em A Lenda

Outro diálogo importante acontece com o expressionismo alemão, movimento que revolucionou o cinema nas primeiras décadas do século XX.

Clássicos como O Gabinete do Dr. Caligari e Nosferatu utilizavam cenários estilizados, sombras marcantes e iluminação dramática para expressar emoções e conflitos internos dos personagens.

Ridley Scott adapta essa linguagem de forma sutil.

Em vez de buscar o realismo absoluto, ele constrói ambientes onde luz e escuridão parecem disputar constantemente o espaço. A fotografia privilegia feixes luminosos atravessando a fumaça, silhuetas recortadas e contrastes intensos que transformam cada cenário em um estado emocional.

Essa opção faz com que o espectador não enxergue apenas uma floresta ou um castelo, mas sinta o peso simbólico desses lugares. O mundo de A Lenda deixa de obedecer às leis da realidade para seguir a lógica dos sonhos — exatamente como acontecia nas obras expressionistas.

Quarenta anos depois, as raízes continuam vivas em A Lenda

Ao revisitar A Lenda quatro décadas após seu lançamento, fica evidente que sua força nunca esteve apenas na história de Jack, Lili ou do Senhor das Trevas.

O verdadeiro encanto do filme nasce das inúmeras camadas artísticas que Ridley Scott reuniu para construir esse universo.

Há ecos do cinema poético de Jean Cocteau, da tradição oral preservada pelos Irmãos Grimm e por Charles Perrault, das florestas encantadas de Arthur Rackham, da grandiosidade visual de Gustave Doré, do simbolismo melancólico de Arnold Böcklin, da mitologia europeia e da força estética do expressionismo alemão. Cada uma dessas influências permanece presente, mas nenhuma delas domina a obra.

Scott faz justamente o contrário: absorve essas referências, interpreta seus elementos mais marcantes e lhes dá uma identidade própria.

Talvez seja esse o maior segredo de A Lenda. Em vez de copiar o passado, o diretor dialoga com ele para criar uma fantasia que continua única quarenta anos depois.

Na próxima vez que assistir ao filme, vale observar além da aventura. Repare na maneira como a luz atravessa a floresta, no silêncio que envolve os unicórnios, na arquitetura monumental do reino das trevas e na delicadeza com que cada criatura ocupa aquele mundo.

Por trás de cada imagem existe um diálogo silencioso entre cinema, pintura, literatura e mitologia. São raízes profundas, escondidas sob a superfície da narrativa, que continuam alimentando uma das fantasias mais belas e visualmente arrebatadoras já produzidas para as telas.

Um conto de fadas diferente de todos os outros

Quando A Lenda chegou aos cinemas em 1985, o gênero da fantasia vivia um momento especial. Produções como A História Sem Fim, Labirinto, Krull e, pouco depois, Willow apostavam em heróis improváveis, criaturas fantásticas e jornadas épicas que conquistavam públicos de diferentes idades. Embora compartilhasse alguns desses elementos, o filme de Ridley Scott seguiu um caminho bastante diferente.

Em vez de construir uma aventura movida apenas pela ação, o diretor preferiu transformar a fantasia em uma experiência sensorial. A floresta parece respirar, a luz invade cada cenário como se fosse um personagem e o silêncio assume tanta importância quanto os diálogos. Mais do que acompanhar uma batalha entre o bem e o mal, o espectador é convidado a atravessar um universo onde cada imagem parece saída de uma pintura ou das páginas de um antigo livro de contos.

Talvez por isso A Lenda tenha dividido opiniões em seu lançamento. Enquanto parte do público esperava uma narrativa mais convencional, Ridley Scott entregava uma obra profundamente influenciada pela história da arte, pela literatura fantástica e pelo cinema clássico. Com o passar dos anos, justamente essa identidade singular fez do longa um dos filmes mais cultuados do gênero.

É sob esse olhar que vale revisitar A Lenda quarenta anos depois. Afinal, por trás de sua narrativa aparentemente simples existe um mosaico de referências que atravessa séculos e ajuda a explicar por que seu universo continua tão fascinante.

Alessandra Rocha

Alessandra Rocha é jornalista formada pela Universidade Estácio de Sá, com especialização em Jornalismo Investigativo. Apaixonada por entretenimento, acompanha de perto o universo do cinema, das séries, da televisão e da cultura pop, sempre em busca de informações relevantes e apuração responsável. Admiradora do rock nacional e apaixonada por viagens, acredita que diferentes experiências culturais enriquecem o olhar jornalístico e ampliam a compreensão sobre as histórias que impactam o público. No Cinestésico, dedica-se à produção de conteúdos informativos, com foco na qualidade da informação, na precisão dos fatos e no compromisso com uma comunicação clara e confiável.

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