Animais Perigosos traz novo fôlego aos filmes de tubarão

Os fãs de terror finalmente podem conferir nos cinemas brasileiros um dos títulos mais interessantes do gênero lançados esse ano. “Animais Perigosos” (Dangerous Animals), dirigido por Sean Byrne, chega cercado por boas críticas e pela curiosidade de apresentar uma combinação pouco comum: um filme de tubarão misturado a um thriller sobre serial killers.

À primeira vista, a proposta pode soar como uma colagem de ideias já vistas inúmeras vezes. Afinal, o cinema vem explorando tubarões assassinos desde “Tubarão” (1975), enquanto psicopatas obcecados por suas vítimas são figuras recorrentes no suspense moderno. No entanto, o que torna “Animais Perigosos” especial é justamente a maneira como consegue fundir esses dois universos sem parecer uma simples cópia de sucessos anteriores.

O resultado é um filme tenso, violento, divertido e surpreendentemente original dentro de um subgênero que muitos acreditavam já estar esgotado.

De Cannes para os cinemas

Antes mesmo de chegar ao circuito comercial, “Animais Perigosos” já havia despertado atenção ao ser selecionado para a prestigiada mostra Directors’ Fortnight, realizada paralelamente ao Festival de Cannes de 2025. Afinal, a escolha não aconteceu por acaso. Pelo contrário, ela refletia a confiança dos programadores do festival em uma obra que buscava oferecer algo diferente dentro de um subgênero bastante explorado pelo cinema contemporâneo.

Nesse contexto, vale lembrar que Sean Byrne já era um nome respeitado entre os admiradores do terror graças a trabalhos cultuados como “The Loved Ones” e “The Devil’s Candy”. Assim, com seu novo projeto, o diretor australiano demonstrou mais uma vez sua habilidade para construir tensão psicológica sem abrir mão do entretenimento mais visceral. Além disso, Byrne mostra um controle admirável do ritmo narrativo, equilibrando suspense, violência e desenvolvimento dos personagens.

Consequentemente, a estreia em Cannes ajudou a posicionar o longa como algo muito além de um simples filme de criatura. Ao mesmo tempo, a exibição no festival despertou o interesse não apenas dos fãs do gênero, mas também da crítica especializada, que rapidamente passou a enxergar a produção como uma das surpresas mais interessantes da temporada. Dessa forma, “Animais Perigosos” iniciou sua trajetória cercado por expectativas positivas, pavimentando o caminho para sua chegada aos cinemas internacionais. Posteriormente, o filme chegou aos cinemas em diversos países, incluindo o Brasil, consolidando-se como uma das boas surpresas do ano.

O verdadeiro monstro não é o tubarão

Grande parte do mérito do roteiro de Nick Lepard está na decisão de inverter uma lógica tradicional dos filmes de tubarão.

Normalmente, o animal é tratado como a principal ameaça da narrativa. Aqui, porém, os tubarões funcionam quase como instrumentos de um horror ainda maior. O verdadeiro predador é Tucker, um serial killer perturbado que sequestra suas vítimas e as utiliza em um ritual macabro envolvendo os animais marinhos.

Essa mudança de perspectiva dá ao filme uma identidade própria. Em vez de apenas repetir a fórmula do “grupo preso na água tentando sobreviver”, a história aposta em uma dinâmica de perseguição psicológica que amplia constantemente a sensação de perigo.

Além disso, o roteiro evita desperdiçar tempo com explicações excessivas. Desde os primeiros minutos, o espectador entende quem é o vilão, qual é sua obsessão e por que ele representa uma ameaça muito mais aterrorizante do que qualquer criatura escondida sob a superfície do oceano.

Jai Courtney entrega a melhor atuação de sua carreira

Se existe um elemento que eleva “Animais Perigosos” acima da média, esse elemento atende pelo nome de Jai Courtney.

Conhecido por participar de produções como “Esquadrão Suicida”, “Duro de Matar: Um Bom Dia para Morrer” e “O Exterminador do Futuro: Gênesis”, o ator encontra aqui um papel que parece ter sido criado sob medida para suas características.

Seu Tucker é ao mesmo tempo carismático, imprevisível e profundamente perturbador. O personagem consegue alternar momentos de falsa simpatia com explosões de violência capazes de deixar o público desconfortável.

O mais interessante é que Courtney evita transformar o vilão em uma caricatura. Em vez disso, constrói uma figura humana o suficiente para ser assustadora. É justamente essa mistura de normalidade e loucura que torna sua presença tão eficiente.

Não seria exagero afirmar que o ator entrega uma das interpretações mais marcantes de sua carreira.

Uma heroína que se recusa a ser vítima

Hassie Harrison interpreta Zephyr. A personagem poderia facilmente seguir o caminho convencional da “vítima em perigo”, mas o filme toma uma direção diferente. Zephyr é inteligente, resiliente e reage constantemente às situações extremas nas quais é colocada.

Isso faz com que a protagonista se torne uma verdadeira força motriz da história. Cada tentativa de fuga, cada decisão tomada sob pressão e cada confronto com o assassino ajudam a manter o ritmo acelerado da narrativa.

Além disso, a química entre Harrison e Josh Heuston, que interpreta Moses, contribui para criar um envolvimento emocional que impede o filme de se tornar apenas uma sucessão de cenas de violência.

Direção segura e tensão constante

Sean Byrne demonstra grande domínio dos elementos do suspense.

Mesmo trabalhando com um orçamento relativamente modesto, o diretor consegue transformar espaços limitados em ambientes sufocantes. O barco utilizado pelo assassino torna-se praticamente uma prisão flutuante, aumentando a sensação de claustrofobia e desespero.

Da mesma forma, Byrne compreende perfeitamente quando mostrar e quando esconder. Em vez de depender exclusivamente de sustos repentinos, ele aposta na construção gradual da tensão.

Essa estratégia lembra alguns dos melhores thrillers dos anos 1970 e 1980, nos quais o medo surgia muito mais da expectativa do que da surpresa.

Consequentemente, o espectador permanece em estado constante de alerta durante praticamente toda a projeção.

Efeitos visuais que servem à história

Outro aspecto positivo está na utilização dos tubarões.

Em muitos filmes recentes do gênero, o excesso de computação gráfica acaba prejudicando a credibilidade das cenas. “Animais Perigosos”, por outro lado, opta por uma abordagem mais contida.

Os efeitos visuais cumprem sua função sem chamar atenção para si mesmos. O foco permanece nos personagens e no perigo iminente, e não em longas sequências digitais criadas apenas para impressionar.

Essa escolha ajuda a preservar a atmosfera realista da produção e reforça a sensação de vulnerabilidade experimentada pelos protagonistas.

Curiosidades sobre a produção

Uma das curiosidades mais interessantes envolve justamente sua concepção. Sean Byrne declarou que desejava recuperar o suspense clássico dos grandes filmes de tubarão, privilegiando a tensão e a expectativa em vez de apostar apenas em espetáculo visual. Além disso, boa parte das filmagens ocorreu na região da Gold Coast, na Austrália, cenário que contribui significativamente para a identidade visual do longa.

Outra característica curiosa é a fusão de dois subgêneros extremamente populares. Enquanto os filmes de tubarão costumam explorar o medo da natureza, “Animais Perigosos” desloca o foco para a perversidade humana, criando uma combinação que raramente havia sido explorada com tanta eficiência.

Vale a pena assistir?

Sem dúvida.

“Animais Perigosos” poderia facilmente ter sido apenas mais um título descartável em uma longa lista de produções sobre ataques de tubarão. Felizmente, Sean Byrne e sua equipe encontraram uma forma criativa de revitalizar uma fórmula bastante conhecida.

Com um vilão memorável, uma protagonista forte, direção competente e uma premissa que mistura serial killers e terror marítimo de maneira surpreendentemente natural, o filme entrega exatamente aquilo que promete: suspense, tensão e entretenimento de qualidade.

Em uma época em que muitos longas do gênero parecem seguir receitas prontas, “Animais Perigosos” surge como uma prova de que ainda é possível encontrar novas maneiras de assustar o público. E, talvez por isso, seja um dos filmes de terror mais interessantes lançados em 2025.

Diego Almeida

Formado em Publicidade e pós graduado em Artes visuais. Admirador da cultura pop no geral, com objetivo em viajar por toda Europa em 1 mês apenas.

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